Levarei Saudades da Aurora
Espaço Cultural BRDE – Palacete dos Leões
Janeiro de 2026
Os filósofos estóicos viam a morte como um processo contínuo e inevitável, para o qual devemos nos preparar ao longo de uma vida que deve ser digna e bem vivida, cultivando a atenção ao presente e valorizando as virtudes mais que as posses. O budismo toma a morte como parte de um ciclo natural que inclui nascimento e renascimento, só interrompido quando o ser alcança a iluminação espiritual. Para as religiões de matriz africana, a morte é apenas a passagem para um outro plano de existência e não uma interrupção da vida. Na cosmogonia dos indígenas originários do Brasil o espírito da pessoa falecida migra para o mundo dos encantados, de onde pode continuar a atuar sobre o mundo dos vivos. A cultura cristã preservou do estoicismo a expressão memento mori, que pode ser traduzida como “lembre-se da morte”. Trata-se de uma orientação para nos afastarmos das vaidades mundanas e mantermos uma conduta que favoreça o futuro da comunidade. Deriva-se daí a atenção para com os afetos, o culto à memória e a prática de valorizar o presente.
Alexandre Frangioni é um artista cuja produção aborda comportamentos sociais por um viés macro, sem se deter nas individualidades, privilegiando aspectos que afetam grandes grupos de maneira geral – os valores que caracterizam as culturas, os apegos ao passado, as ilusões que movem a busca pelo poder são alguns motores de seu trabalho. O conjunto escolhido para esta individual é composto por obras que se relacionam particularmente com a memória, os afetos e as contradições entre princípios alardeados e ações tomadas. São trabalhos em diferentes linguagens, técnicas e materiais comumente caracterizados por um acabamento típico da produção industrial, o que mantém a individualidade do artista oculta. Paradoxalmente, as escolhas temáticas apontam para a expansão de inquietações subjetivas que vão ao encontro do que é vivenciado coletivamente.
O título da mostra vem da canção “Na cadência do samba”, composta por Ataulfo Alves e Paulo Gesta em 1962. Para além do refrão que frisa a antecipação da saudade, a letra fala da inevitabilidade da morte e expressa preocupação com o tipo de reputação que o morto deixará.
O meu nome ninguém vai jogar na lama
Diz o dito popular:
Morre o homem, fica a fama
O temor da morte é o temor do esquecimento – tanto de esquecer quanto de ser esquecido, especialmente em relação aos momentos significantes do cotidiano e às relações que construímos. A Aurora do título pode ser a personificação de um amor, mas também o nascer do dia, a renovação cíclica que seguirá acontecendo a despeito de nossa ausência. Quando já não estivermos por perto, apenas a recordação de nossas ações será testemunha de nossa passagem por este plano.
Por lidarem com questões imbricadas na realidade coletiva, os trabalhos de Frangioni são desenvolvidos a partir de elementos facilmente reconhecíveis nas sociedades ocidentais, especialmente a brasileira. Se, por um lado, a história individual do artista está resguardada, os aspectos que as obras abordam são partilhados com o outro. Ao se reconhecer nas questões abordadas, o espectador é convidado a uma apreciação para além da materialidade das obras. Entram em campo reflexões sobre nossa conduta e nossa responsabilidade para com as sociedades que construímos, o mundo que deixaremos para os que vierem depois de nós.
Bandeira do Brasil I (2020) tem a forma de roleta, na qual os resultados possíveis são estereótipos associados ao país. Um símbolo nacional em forma de jogo de azar indica as contradições e idiossincrasias de ser brasileiro. Bandeira do Brasil II (2020), que traz significantes similares, é confeccionada com madeiras típicas de diferentes biomas do país, recursos naturais que são alvo de cobiça desde 1500. Bandeiras de outras nações sobrepõem símbolos de orgulho e questões como xenofobia ou consumo de luxo, sintomas de desigualdade social.
R-Evolução (2017) é um trabalho que usa do humor para denunciar a concentração de poder, enquanto os cofres servem, neste caso, não para proteger o status quo, mas para preservar emoções materializadas em itens pessoais. As composições da série Memórias seguem padronizações arbitrárias, assim como são arbitrárias as decisões sobre quais coisas ou pessoas são dignas de serem sacralizadas em emblemas, efígies e selos.
Ao abordar os imaginários coletivos e questionar como os afetos são sobrepujados pelas disputas por poder, a exposição nos alerta de que as imagens que vemos são falsamente familiares. Quando agimos irrefletidamente, em acordo manso com o que nos é imposto como correto, talvez nos afastemos do que realmente nos alimenta o espírito. No ritmo frenético da vida contemporânea, em que somos bombardeados por estímulos a todo instante, como saber se nossas paixões e valores nos aproximam ou nos afastam daqueles de quem levaremos saudades?
Sylvia Werneck
primavera de 2025











